
“ – Você é um romântico.”
Tenho que admitir que já escutei esta afirmação mais de uma vez na vida.
Nunca discordei, mas recentemente tenho que adicionar:
Sou um romântico incorrigível!
A vida já me mostrou em varias ocasiões este fato, mais ainda, ela já demonstrou para mim que hoje em dia ser assim é deveras penoso.
Às vezes gostaria de não sê-lo. Gostaria de dispensar a mesma forma de tratamento aos outros. Às vezes tento ser recíproco, mas no fundo eu sei que sou apenas um arremedo deste tipo de pessoa. No fundo sinto tudo, talvez mais.
Estas pessoas preferem desconfiar a confiar. Elas preferem dissuadir a serem sinceras. Elas escondem o que sentem. O problema é que escondem por tanto tempo que ao final nem sabem mesmo o que sentem.
Estas pessoas não se comprometem de corpo e alma em nada. Elas se apóiam em coisas materiais, em vantagens, em “ter” e não no “ser”; e tudo que elas acreditam tem que ser dentro de seus padrões. Até seus sonhos acabam por serem medíocres, uma vez que a nós tudo é possível sonhar.
Sempre me perguntei porque dou mais valor a amizades e amor do que as pessoas com quem travei este enlace. Acho que alem de romântico sou muito ingênuo. Permito-me sentir tudo em sua máxima extensão, depois penso que a outra parte faz o mesmo. Nunca o fazem.
A vida me mostrou que sou um bom amigo, enquanto sirvo a algum interesse da parte oposta. Ela me mostrou que sou um ótimo namorado, noivo, marido, se eu também estiver apenas dentro daquilo que é esperado, caso contrário de nada sirvo.
E eu continuo desfiando o velho monólogo utópico: amor incondicional, reciprocidade, sinceridade, honra, compreensão...
O que vale os anos passados, a sabedoria que pensamos ter, as mudanças que passamos?
Minha sabedoria não me conforta em nada, ao contrario, só me deixa cada dia mais cético.
Os anos que se passaram foram quase como apenas para marcar linhas no rosto e acumular problemas.
As mudanças... Estas, que um dia, pensei ser finalmente evolução. Não reconhecidas. Muito menos aproveitadas.
Afinal de que adianta discernir o certo do errado, se quase ninguém dá valor a isso?
O grande problema de se pensar sozinho, de não seguir padrões definidos a não ser por si mesmo, é depois cair no ostracismo daqueles que você ama. O diferente atrai, mas cansa eventualmente. Pode ser breve ou demorar muito tempo, mas o final é quase sempre o mesmo. Descartado.
Maior problema ainda de ser um romântico incorrigível e ingênuo é sempre desejar não ter esperanças, mas tê-las assim mesmo. A cada esperança atravessada mortalmente no coração por uma lança da realidade, renasce outra, diferente, talvez mais fraca, porem igualmente dolorosa quando morre.
Estas mortes não deixam cicatriz no corpo. Talvez transpareçam nos olhos. A janela da nossa essência. Meus olhos carecem de espaço.
Esperança, esta fênix maldita, cujo cemitério já conta com milhares de cruzes fincadas.
Pois me falta a coragem de admitir certas coisas que a vida não cansa de me jogar na cara, às vezes até mesmo me esbofeteando com elas. Não sei se é apenas coragem ou em minha infinita ignorância eu não consiga entender como coisas simples que anseio são tão difíceis de se obter.
Coisas como:
Ser visto como uma pessoa normal e não apenas um amontoado de defeitos.
Ser visto como igual por aquele que se ama.
Sonhar o impossível, mas contentar-se com aquilo que poder ser realizado.
Receber a mesma compreensão que dispenso.
Receber aquilo que dou em igual proporção.
Ser aceito como eu sou, da mesma maneira que aceito os outros.
O anseio de alguém para compartilhar aquilo que sou e não apenas aquilo que tenho.
Eu vou continuar sendo um romântico... A despeito do que a vida possa querer me ensinar neste momento, como quis em outros. Serei, pois está em mim lutar, mesmo sabendo que vencerei batalhas pequenas, mas nessa guerra a vitória nunca foi minha.
Eu sei que a vida não carece de justiça. Nós, sim.
Eu sei que o tempo é indiferente. Nós, não.
Eu sei que o destino não existe, a não ser aquele que traçamos e depois não seguimos.
Eu sei que não há nada alem, nada aquém, nada... alem de nós, das escolhas que fazemos ou pensamos fazer e daquilo que fazemos de nós depois destas escolhas.
Eu sou senhor do nada. Serei levado onde quer que seja.
Nessa viagem o importante não é o destino e sim a jornada.



