sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sonho em celulóide




Foi um sonho incomum...

Em tons de cinza daltônicos sua forma destacava-se pois era a única colorida.

Lembro-me do castanho profundo do seu olhar tímido, pronto a tornar-se selvagem se não fosse o muro que o prendia... Medo.


Foi assim caminhando ao seu lado, passos lentos e assíncronos, ouvíamos um burburinho constante

Falando, rindo, gritando ou chorando,tudo misturava-se ao som das ondas próximas.

Absorto, percebi finalmente o que sempre nos separou... Medo.


Apesar de termos a mesma direção percorríamos o caminho sozinhos. Como se algo nos dissesse que seria muito perigoso deixar outra pessoa chegar tão perto.

Ao chegarmos a beira mar o cheiro salgado e brisa fresca misturavam-se ao cheiro do seu cabelo perfumado

Um estranho sentimento de deja vu me tomou subitamente, como se sempre tivéssemos estado ali.


Pés na areia molhada, a orla se estendia alem da vista, no horizonte o sol lentamente nascia...

Agora em tons de sépia.

Não saberia dizer se fui tomado pelo impulso, ou se apenas fracassei em controlar meus atos
ou ainda se fui ingênuo, pensando ser capaz de controlar algo que rivalizava com as maiores forças da natureza.

Te beijei... por um momento senti seu sabor, por um momento esqueci o medo... E tudo resumiu-se a isto, um momento...

Até que fui afastado com força, o tapa na face me deixou atordoado, envergonhado... Tento explicar, mas estou paralisado

Chorando você me beija de novo, morde meus lábios até que sangrem e me diz que tem medo...

Que não é hora, que não é isso, que não ...

Não!

Pego sua mão, você a solta com força. Tento colher suas lágrimas, não consigo.

Te abraço forte e digo :

-Adeus...

Seu choro aumenta., você me empurra, meu sangue ainda nos seus lábios perdem a cor.

Impotente, magoado, culpado, coração partido

Começo a caminhar para um exílio voluntário ... Te deixo ali parada me olhando

Retorno por onde viemos, dando minhas costas a você, lutando para não olhar para trás, inutilmente tentando achar algo que não sei se sequer tivemos

Minha expressão de incredulidade, contrastava com a mudança em sua face quando a fúria finalmente se mostrou.

Um close nos meus lábios mostrava-me apenas balbuciando palavras que não faziam sentido...

Na tela o filme congela e rapidamente marcas do calor dissolvem em bolhas deixando
a sala no escuro apenas o som do projetor rodando e a fita batendo...

Sentada ao meu lado, você segura minha mão:

-O filme já acabou ? - Você pergunta confusa.

-Este filme não tem fim, nem créditos finais.- Respondo ecoando no escuro.

As luzes acendem-se, damos conta da sala enorme e vazia que estávamos.

-Que pena eu queria tanto saber o final... - Você fala enquanto desce as escadas
me deixando sentado, ainda tentando entender.

Antes de sair você olha para trás, esperando por alguma coisa

-O final nunca foi escrito, assim como "eu te amo" nunca foi dito, não deve ser um romance.- Conclui, com uma voz tremula.

Olho para baixo buscando sua expressão, na expectativa de ser contrariado.

-Não é. - Você responde com firmeza.

-Então o que é? - Pergunto ansioso enquanto me levanto.

-Não sei...

Fico parado ali sem respostas no meio da sala, a tela branca encoberta pelas cortinas, o som do projetor silencia

Logo depois que você sai, continuo ouvindo seus passos no corredor, as luzes se apagam novamente.

Sozinho me sento no escuro sussurrando em tom de oração

-Ninguém disse "Eu te amo"

Repito a mesma frase agora em voz alta, ouvindo apenas o eco me responder.

Eu te amo

Te amo

Amo

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